quinta-feira, 2 de junho de 2011

cruzamentos amigos

Mas alguns deles farão de tudo para liquidar você.

De todas as implicações de se trabalhar no centro, a que eu mais gosto é a de criar certa intimidade com alguns dos principais cruzamentos da cidade. E olha que eles são cheios de mistérios e não andam muito abertos a novas amizades, não. Tem um que, por motivos óbvios, não vou identificar, que claramente odeia gente. De todos os tipos. Não importa se você atravessa na faixa, respeita o sinal de pedestres ou ajuda uma senhorinha cheia de compras. Ele é do mal e vai fazer de tudo para liquidar você.

Tirando esse, e um ou outro sutilmente indiferentes, os cruzamentos da cidade têm seu charme. E com um pouco de convivência você aprende a lidar com eles. Por exemplo, hoje tenho orgulho em dizer que posso apontar, com precisão cirúrgica, qual a maneira mais rápida de chegar de uma diagonal a outra na Praça Tiradentes. Suponhamos que você esteja na Afonso Pena, sentido Serra. Se o bonequinho do sinal lá do outro lado, na Aimorés, estiver verde, não pense duas vezes: cruze a Afonso Pena primeiro, a Brasil depois. Se o rapaz estiver vermelho, é só inverter: Brasil, Afonso Pena. Agora, se ele estiver piscando, meu amigo, sorria. Você deu a sorte de chegar no pior momento. Pode ligar e avisar que vai se atrasar. São pelo menos quatro minutos e trinta e um segundos até que você chegue ao lado de lá.

Aliás, essa é a única certeza da vida. Quem disse que era a morte, certamente nunca foi pedestre por essas bandas. Porque, sério, aconteça o que acontecer, você sempre vai chegar pela esquina errada de um cruzamento em Belo Horizonte. E como pode demorar pra que você chegue onde pretendia…

Desceu do ônibus na Carandaí? Lá se vai o vendedor de picolé de milho verde pela Guajajaras.

Seu dentista fica na Augusto de Lima? Pode ter certeza que a banca que vende Faixa Azul fica do outro lado da Curitiba.

Os cruzamentos podem, também, ser divididos em categorias: tem os atropeladores e o que só gostam de matar o tempo alheio. Os intermináveis e os que te oferecem a vista mais linda, lá do meio, quando você só tem oito segundos para apreciá-la. Tem os cruzamentos que nasceram para serem fechados e os intolerantes a chinelos de dedos. Os que você precisa atravessar de dedos cruzados e os portadores de necessidades especiais. Tem os cruzamentos com dupla personalidade, também. É só passar pela Contorno que eles mudam de nome. Sem pestanejar.

Mas os meus preferidos são os cruzamentos amigos (embora tenha dias em que eu adore os cruzamentos-passarela). Já concluí que amizade que nasce em cruzamento é linda e verdadeira.

Eu, cuido com carinho das minhas.

Tem o moço do chapéu, que sempre cruza a Rio de Janeiro no mesmo horário que eu. Ontem, ele me perguntou as horas. Achei ousado, pensei que nosso relacionamento ainda não estava nesse ponto. Agora, estou torcendo para superarmos essa pequena crise.

Tem a moça do buldogue, que sempre deixa pra atravessar a Amazonas quando o sinal está prestes a abrir. Buldogue não é feito pra correr, minha gente. Mas eu gosto dela mesmo assim.

E acho lindo o fato de, em uma cidade planejada, os cruzamentos serem tão independentes. E cheios de si.


(texto originalmente publicado em Ah! Cidade, em 26/5/2011)

terça-feira, 31 de maio de 2011

31.05.2011



meu marido é genial:

"Hoje é um dia sagrado para homens de todo mundo. Ou deveria ser. Um dia para se sentar sozinho, lata de cerveja a mão, charuto na boca e, em um momento de reflexão profunda pensar “quanto falta para eu ser Clint Eastwood?”.

Parabéns pelos 81 anos, Clint!"


faço das palavras dele as minhas: parabéns, clint.
e te amo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

vida louca 995

no jantar de ontem:

- é díficil lembrar o que a gente esquece, né?

é, liginha, eu nunca tinha pensado nisso.