quinta-feira, 16 de setembro de 2010

coletivo

sete horas da manhã e eu no ônibus vazio.
sentada à janela, cotovelo apoiado no colo e mãos segurando o queixo, numa atitude de quem anda boquiaberta com a vida.
quantas pessoas passaram pelo mesmo ônibus no dia anterior?
e quantos pensamentos passaram por elas?
alguém mentiu, alguém se apaixonou?
será que alguém tentou descer sem pagar?
enquanto isso, o trocador cantarola uma melodia conhecida.
acho que é um pagode.
molejo? art popular? inimigos da hp?
não conheço muitas bandas de pagode, vai ser impossível adivinhar.
antes da roleta duas senhoras conversam animadas.
a mais falante tem os cabelos brancos.
e o vestido idem.
já vinha observando-as há algum tempo, já entendi que a senhora do vestido branco é meio surda. e deve ser por isso que fala tão alto.
está contando sobre o seu filho mais velho, o astolfo (ataúfo? adolfo? adalto?), que está se separando da sua segunda mulher.
penso, um milésimo de segundo antes de ela dizer: no meu tempo, não era assim. hoje todo mundo separa fácil demais. é exatamente o que ela diz, e eu marco um ponto na minha gincana mental preste-atenção-na-conversa-alheia-e-adivinhe-o-que-cada-um-vai-dizer.
nesse momento, entra um casal de adolescentes.
eu não sei o que acontece, mas os casais de adolescentes, mesmo quando são feios, são bonitos.
acho que de tanto tentar agradar um ao outro, eles acabam agradando a mim.
não soltam as mãos nem pra passar pela roleta.
ele tira o dinheiro da mochila, dobradinho.
paga pra ela.
isso é de um romantismo tão grande.
você não paga uma passagem de ônibus pra qualquer um, certo?
ele não, mas ela é, na verdade, muito bonita.
em quatro ou cinco anos, um cara mais velho, dirá, enquanto ajeita com os dedos os cabelos compridos atrás da orelha, que é uma beleza assim, despretensiosa.
mas hoje não, porque ninguém é despretensioso aos 15 anos.
ele, não tem nada demais.
um pouco feio, um pouco tímido.
um pouco inseguro, e com razão.
chega o ponto da senhorinha, a amiga da de vestido branco.
o vestido dela é azul, da cor do ônibus.
ela desce e a vida continua.

nada disso aconteceu.
mas tudo isso poderia ser.

7 palpites:

Harry disse...

Muito bom, tumtumzêra!
Muito legal mesmo! Quero mais!

marcela dantés disse...

tumtumzinho amado.

leo lott disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
leo lott disse...

você no ônibus às 7 da manhã?
ahã, cláudia...

Mateus Coelho disse...

E acaba que o que poderia ser verdade às vezes é ainda mais verdade.

Aline disse...

Marcelaaa... adorei. Te seguindo...

Paz e bem.

Li:)

Rebecca P. disse...

Que lindo isso!